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quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Amores ...

Sempre em ânsia
Pela hora
Da chegada
Dessa criatura
Que tanto amo…

Criatura?
Sim.
Porque não?

Todo o ser humano
É uma criatura
Uma bênção de Deus
Ou uma dádiva da Natureza

Trabalho
Penso no seu rosto
A cada instante
Nesse jeito calmo de ser
Com um cheiro de malícia
Repleto de sensualidade

Esta alma vive intensamente
Cada momento
Da sua existência
Individual e colectiva
Como se cada instante fosse
O último do resto da sua vida

Respira e expira a própria vida
Sempre a inspira
Pelas largas narinas
De um rechonchudo nariz
Postado no seu rosto moreno
Moreno – bombom

Aí estão apensos uns profundos olhos negros
Que vêem sempre mais longe
Nos olhos dos outros
Quando os observa
Na mais profunda intensidade

Sem pestanejar
Tão fixamente
Como as estrelas
Que no céu estrelado
Mantêm o seu brilho
Denso
Quase eterno

São pérolas negras
Fustigam o meu olhar
Trespassam-me
Visceralmente

Há uma certa magia
Em todos os seus actos
Em todos os seus gestos
Na sua voz grave
Doce e terna
De sons gerúndios

Essa magia apaixona,
Fascina
Atrai
Como um hímen
A limalha de ferro

Penetra-me
Indelevelmente
Envolve-me
Num misto de sedução
De prazer
De felicidade
E de ansiedade eterna

Perpetua-se em cada sinal
Em cada movimento
De um corpo deambulante
Exemplificante da singularidade
Da alma que o habita
Tão livre como a ave
Que pode abandonar a sua gaiola
Mas não mais a sua prisão

Vagueia
Quiçá
Sem destino
Pelas múltiplas paragens da Mundo
De todos os destinos humanos

A atracão que exerce
Estranhamente intensa
Torna-se inexplicável
Indizível
Inefável
Pertence ao domínio inviolável do SENTIR
Excede todo o campo semântico

Tem um toque diferente
Como se pertencesse a outro espaço
A outro tempo
A um outro lugar

Extravasa a vulgaridade
De todas as possíveis vivências quotidianas
Mantém tudo no seu preciso lugar

Em si residisse
Um topos singular
E todo o desvio é assumido
Como uma violação inevitável

A sua presença
Tão envolvente
Tão cheia,
Tão redonda
Nada deixa de fora

Aí permanece
Como a aranha
Na sua própria teia
Os seus movimentos
Rodopiam nas malhas
Dessa gigantesca trama
Abrangedora de tudo o que o rodeia

O seu estar
Presentifica o próprio Universo
Só existíssemos os dois

A realidade
Entra em nós
Totalmente
Nada,
Absolutamente nada
Pode estar fora do nosso alcance

Emerge a sensação do Absoluto
Da Totalidade
Nós
E o Mundo
Somos o mesmo

Todas as dualidades desaparecem
A união das partes é plena
A divisibilidade não tem lugar

Em nós
Permanece o Cheio
O Aberto
Em perfeita comunhão

E a Vida,
Apesar de todas as adversidades
Torna-se tão simples
Tão singela
Tão leve
Tão radiosa
Tão apetecível

O sono
O sonho
Não é mais efémero
Resplandece
Num eterno momento de serenidade
De paz
Tão sólida e inevitável

Permanecemos em união
Até ao íntimo do nosso Ser

O Mundo
Penetra-nos
Na mais pura e bela gratuitidade

A “paz perpétua” assoma
Onde se gera a agonia
A ansiedade
A angústia
Quando extravasa
Pelo álcool
O néctar dos deuses
Os limites da racionalidade
Da sobriedade
Da consciência

São esses os momentos de excesso
Da pura embriaguez catártica
Dessa criatura que tanto amo

Os meandros
As fronteiras
Do seu pensamento,
Esbatem-se
Até às lágrimas

As ideias
Os sentimentos
Os pressentimentos
Flúem
Transbordam
Como um rio
Do seu próprio leito


Nele
Um desregramento de caudal
Que só a embriaguez faz despoletar

Volta ao silêncio
Ao silêncio da voz
Nunca
Ao silêncio do pensamento
São momentosos de introversão
De uma lama que está para além de si

A catarse da embriaguez
Voltará
Brilhará
Com tanto sofrimento
Com tanta angústia

O mundo parece desabar
A queda é efémera
E do caos se ergue
De novo
A ordem

“Acorda para a realidade”
Com a necessidade
De se evadir

É o comportamento característico
De todo o ser sensível e consciente
Das atrocidades da Existência humana
Em permanente sobressalto

Urge esquecer tudo
Entrar numa outra ordem
Num outro espaço
Trazido por todos os alucinogénios

A ressaca
Não é assim tão terrível
A lucidez nunca é
Perdida
Apenas desviada
Para outras paragens
Que a imaginação
Requerer percorrer

O Mundo
Os Homens
Obrigam-no a esse esquecimento
Em prol da mais efémera ilusão de serenidade

Nesses momentos
Torna-se um outro de si próprio
O seu corpo
Lânguido
Derrubado
Perde toda a sua volúpia magistral

Vacila entre o Ser e o Não-ser
Entre o Tudo e o Nada
Penetra
Hiperbolicamente
Nas entranhas de tudo
Qual cobra
No seio do silvado
Depois de estarrecida

Aí permanece exposto
Desarmado
Exausto
Não tem mais forças
Para se erguer
Quebrou todos os escudos
Tornou-se indefeso

Confunde-se com o próprio chão
Onde caiu
E amoleceu
Instantaneamente
Aí permanece estendido
Com um olhar amortecido
Semicerrado

O excesso assoma
Espelha a aura
Invisível da sua alma
Dissolvida
Despedaçada
Espera um outro reencontro
Um outro renascimento
Entre tantos outros já passados
Entre tantos outros que
Se adivinham…

Isabel Rosete
(Dedicado a um ente muito querido, já falecido pela embriaguez do álcool)
02/02/01
15/01/07
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