VideoBar

Este conteúdo ainda não se encontra disponível em ligações encriptadas.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

"ENTRE-CORPOS", um livro de Isabel Rosete: Isabel Rosete

Cria o teu cartão de visita

"SEM POESIA NÃO HÁ HUMANIDADE", por Teixeira de Pascoaes


Sem Poesia não há Humanidade. É ela a mais profunda e a mais etérea manifestação da nossa alma. A intuição poética ou orfaica antecede, como fonte original, o conhecimento euclidiano ou científico. E nos dá o sentido mais perfeito e harmónico da vida. Aperfeiçoando o ser humano, afasta-o do antropóide e aproxima-o dos antropos. Que a mocidade actual, obcecada pela bola e pelo cinema, reduzida quase a uma fotografia peculiar e uma espécie de máquina de fazer pontapés, despreza o seu aperfeiçoamento moral; e, com o seu fato de macaco, prefere regressar à Selva a regressar ao Paraíso. E assim, igualando-se aos bichos, mente ao seu destino, que é ser o coração e a consciência do Universo: o sagrado coração e o santo espírito. Eis o destino do homem, desde que se tornou consciente. E tornou-se consciente, porque tal acontecimento estava contido nas possibilidades da Natureza. Sim, a nossa consciência é a própria Natureza numa autocontemplação maravilhosa. Ou é o próprio Criador numa visão da sua obra, através do homem. E, vendo-a, desejou corrigi-la, transfigurando-se em Redentor.

Teixeira de Pascoaes, in "A Saudade e o Saudosismo"

TEIXEIRA DE PASCOAES

TEIXEIRA DE PASCOAES
"A ARTE DE SER PORTUGUÊS"

"AUSÊNCIA", por Teixeira de Pascoaes


Lúgubre solidão!
Ó noite triste!
Como sinto que falta a tua
Imagem
A tudo quanto para mim existe!
Tua bemdita e efémera passagem
No mundo,
deu ao mundo em que viveste,
Á nossa bôa e maternal Paisagem,
Um espirito novo mais celeste;
Nova Forma a abraçou e nova
Côr Beijou, sorrindo, o seu perfil agreste!
E ei-la agora tão triste e sem verdor!
Depois da tua morte, regressou
Ao seu velhinho estado anterior.
E esta saudosa casa, onde brilhou
Tua voz num instante sempiterno,
Em negra, intima noite se occultou.
Quando chego á janela, vejo o inverno;
E, á luz da lua, as sombras do arvoredo
Lembram as sombras pálidas do Inferno.
Dos recantos escuros, em segredo,
Nascem Visões saudosas, diluidos
Traços da tua Imagem, arremêdo
Que a Sombra faz, em gestos doloridos,
Do teu Vulto de sol a amanhecer...
A Sombra quer mostrar-se aos meus sentidos...
Mas eu que vejo?
A luz escurecer;
O imperfeito, o indeciso que, em nós, deixa
A amargura de olhar e de não vêr...
A voz da minha dôr, da minha queixa,
Em vão, por ti, na fria noite clama!
Dir-se-á que o céu e a terra, tudo fecha
Os ouvidos de pedra!
Mas quem ama,
Embora no silencio mais profundo,
Grita por seu amor: é voz de chama!
E eu grito!
E encontro apenas sobre o mundo,
Para onde quer que eu olhe, aqui, além,
A tua Ausencia tragica!
E no fundo
De mim proprio que vejo?
Acaso alguem? S
ó vejo a tua Ausencia,
a Desventura
Que fez da noite a imagem de tua Mãe!
A tua Ausencia é tudo o que murmura,
E mostra a face triste á luz da aurora,
E se espraia na terra em sombra escura...
Quem traz o outomno ao meu jardim agora?
Quem muda em cinza o fogo do meu lar?
E quem soluça em mim?
Quem é que chora?
É a tua Ausencia, A
môr, que vem turbar
Esta alegria etérea, nuvem,
asa De Anjo que,
ás vezes, passa em nosso olhar!
O Sol é a tua Ausencia que se abrasa,
A Lua é tua Ausencia enfraquecida...
Da tua Ausencia é feita a minha vida
E os meus versos tambem e a minha casa.

Teixeira de Pascoaes, in 'Elegias'
"Ainda há espaços escondidos nos corações dos Homens!"
Isabel Rosete

Eu

Eu
SORRIA, SEMPRE, COMO SE AS ROSAS NÃO TIVESSEM ESPINHOS

NATÁLIA CORREIA

NATÁLIA CORREIA

"COMO DIZER O SILÊNCIO?", Natália Correia




Se em folhagem de poema
me catais anacolutos
é vossa a fraude. A gema
não desce a sons prostitutos.
O saltério, diletante,
fere a Musa com um jasmim?
Só daí para diante
da busca estará o fim.
Aberta a porta selada,
sou pensada já não penso.
Se a Musa fica calada
como dizer o silêncio?
Atirar pérola a porco?
Não me queimo na parábola.
Em mãos que brincam com o fogo
é que eu não ponho a espada.
Dos confins, o peristilo
calo com pontas de fogo,
e desse casto sigilo
versos são só desafogo.
E também para que me lembrem
deixo-os no mercado negro,
que neles glórias se vendem
e eu não sou só desapego.
Raiz de Deus entre os dentes,
aí, pára a transmissão.
Ultra-sons dessas nascentes
só aves entenderão.

"AUTO-RETRATO", Natália Correia



Espáduas brancas palpitantes:
asas no exilio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.


Natália Correia
Poesia Completa
Publicações Dom Quixote
1999

MÁRIO SÁ-CARNEIRO - PARQUE DOS POETAS - OEIRAS - 2003
Álcool

Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.
Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.
Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo ---
Luto, estrebucho...
Em vão!
Silvo pra além...
Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...
Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?
Nem ópio nem morfina.
O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante ---
Manhã tão forte que me anoiteceu.

Mário de Sá-Carneiro

Mário de Sá-Carneiro

Mário de Sá-Carneiro
Em todos os além(s)
Além-tédio

Nada me expira já, nada me vive ---
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.
Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.
Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.
Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!
Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.
E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...


Mário de Sá-Carneiro




Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá-Carneiro



O Mais perfeito...

A figura mais perfeita e mais capaz de quantas inventou a natureza e conhece a geometria é o círculo. Circular é o globo da terra, circulares as esferas celestes, circular toda esta máquina do universo, que por isso se chama orbe, (...)
Padre António Vieira, in "Sermão de Nossa Senhora do O"

Padre António Vieira

Padre António Vieira
Um homem que viu/vê longe

padre António Vieira, em "Sermão da Nossa Senhora do O"

Uma das maiores excelências das Escrituras divinas é não haver nelas nem palavras, nem sílaba, nem ainda uma só letra que seja supérflua ou careça de mistério.

Em plena Liberdade

Em plena Liberdade
Se fosse um "animal irracional", eis-me aqui...

Isabel Rosete: Curriculum Vitae abreviado

I – Dados pessoais

·Maria Isabel Rosete, nascida em Aveiro, Portugal, a 05/04/1965, residente na Rua Domingos Ferreira Pinto Basto, nº 22, 1º Dtº, 3830-177 Ílhavo.
·Contactos telefónicos: 234324033 / 963936911;
·E-mails: isabelrosete@gmail.com / mariamailto:mariaisabelrosete@gmail.com

II – Dados profissionais: habilitações literárias, cargos e desempenhos[1]

· Licenciatura em Filosofia (Ramo de Formação Educacional), pelo Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, com a classificação de 17 valores;
· Curso de Mestrado em «Estética e Filosofia da Arte», pelo Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sob a orientação da Professora Doutora Mafalda de Faria Blanc;
· Doutoranda, na mesma área de investigação, no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro, com o projecto de Tese «Uma Poética da Música em Martin Heidegger: os Domínios da Poesia e o Canto dos Poetas», sob a orientação da Professora Doutora Fátima Pombo;
· Bolseira do Ministério da Educação Português, durante oito anos, para investigação na área supra referenciada, com a classificação de Muito Bom;
· Curso de «Grego Elementar», pelo Departamento de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com a classificação de 16 valores;
· Curso de «Alemão Inicial», pela Royal School of Languages de Aveiro, com a classificação de B+;
· Curso de Estudos Superiores Especializados em «Gestão e Administração Escolar», pelo Instituto Superior de Educação e Trabalho do Porto, com a classificação de 17 valores;
· Membro convidado do «Gabinete Técnico-pedagógico» da Delegação do Distrito de Aveiro do Ministério da Educação Português, responsável pelo Ensino Secundário, pela Formação de Professores e pela orientação legislativa e administrativa das Escolas. Pelo trabalho desenvolvido obteve a classificação final de Muito Bom;
· Júri Nacional de Exames de acesso ao Ensino Superior. Pelo trabalho desenvolvido obteve a classificação de Muito Bom;
· Lecciona as Disciplinas de Filosofia e de Psicologia na Escola Secundária de José Estêvão de Aveiro, onde é Professora do Quadro de Nomeação Definitiva;
· Investigadora, escritora e poetisa: a) Investigação: Filosofia, Estética e Filosofia da Arte, Psicologia, Literatura, Poesia, Educação, Tecnologia e Ecologia; b) Poesia e Prosa Poética (várias temáticas); c) Escrita ensaístico-científica: Filosofia, Educação, Filosofia da Arte, Estética, Poesia, Literatura, Psicologia e Psicologia da Educacional;
· Publicações impressas: «Correio Sindical», Jornal do Sindicato Nacional dos Professores da Zona Centro; «A Voz dos Pais», Revista Trimestral da Confederação Nacional das Associações de Pais; «Diário Regional – Aveiro e Viseu»; «Revista Arrabalde»; «Vide-Verso», Antologia de Poemas, Andross Editora, São Paulo; «Roda do Mundo 2008», Antologia Literária, Ottoni Editora, São Paulo;
· Títulos publicados: «Mudança e Inovação Educacional no Contexto da Reforma Educativa»; «Educar para a Interdisciplinaridade I: Algumas Considerações Prévias»; «Educar para Interdisciplinaridade II: A Área-Escola e o Paradigma da Interdisciplinaridade»; «A Escola que temos e a Necessidade de Mudança e Inovação Educativa»; «O Novo Modelo de Direcção e Gestão dos Estabelecimentos de Ensino não Superior e as Propostas de Inovação Educacional»; «Didáctica Filosofia face aos Novos Programas: Estratégias e Métodos»; «Educar para a Autonomia e para a Liberdade»; «Em Prol da Solidariedade»; «Educação e valores: Do Abstraccionismo Legislativo à Concretude Real»; «A Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses»; «Para uma Compreensão Ontológica da Existência em Martin Heidegger»; «Quantos são Mistérios da Escrita», «Nas Montanhas do Coração» (ensaio literário-filosófico sobre Rainer Maria Rilke), entre outros;
· Títulos a publicar em 2009 (em processo de edição): «Poiesis», Editora Minerva, Lisboa; «Rosto(s) da Alma», Editora Minerva, Lisboa; «Vozes do Pensamento – Uma Obra para Espíritos Críticos», Edições Ecopy, Porto.
· Publicações na Web:
http://isabelrosete.blogspot.com/;http://isabelrosetefilosofias.blogspot.com/;http://isabelroseteheidegger.blogspot.com/;http://www.prof2000.pt/users/secjeste/Isarosete/omeupensamentoviaja.htm;http://www.leialivro.sp.gv.br/;http://www.revista.critério.com.br/;http://www.literaturalivre.com.br/;http://escreva.com/;http://www.vaniadiniz.pro.br/;http://br.groups.yahoo.com/group/portal_brasileiro_da_filosofia/;http://isabelrosere.muliply.com/;http://textolivre.com.br/;www.consciencia.org/heideggerisabelrosete.shtml;http://isabelrosetecci.blogspot.com, entre outros
· Palestrante: comunicações apresentadas em Acções de Formação /Colóquios/Tertúlias/Seminários, ao nível regional e nacional: «Heidegger e a Instauração de uma Poética da Palavra»; «A Estética e a Actividade Humana»; «Ciência e Ética: Que Futuro para a Humanidade?»; «Sexualidade e Antropologia»; «Sonhar as Palavras»; «A Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses»; «O Novo Sistema de Avaliação dos Alunos do Ensino Básico e Secundário»; «Projecto Educativo e Área-Escola: O Novo Rosto das Escolas Portuguesas»; «Área-Escola e Projecto Educativo de Escola no Contexto da Nova Reforma do Sistema Educativo: Problematização, Conceitos e Metodologias»; «Personalismo e Educação: A Dimensão Axiológica da Função Docente. Perspectivas da Educação para o Século XXI»; «O Novo Modelo de Direcção e Gestão dos Estabelecimentos de Ensino não Superior e as Propostas de Inovação»; «Em prol de uma sexualidade Humanizada», «Racismo e Tolerância – Um Olhar Sobre o Outro», «Direitos do Homem e Educação para a Tolerância: uma Perspectiva Filosófico-Axiológica; «Formas de Discriminação da Sociedade Contemporânea: Estratégias de Dominação ou Diálogo Amoroso?»; «Antígona e a condição trágica do Homem»; «Antígona: o conflito das Leis e a Tragédia do Poder»; «Antígona e a Condição da Mulher: Justiça, Coragem e Beleza»; «Heidegger: “Quem é o Homem?”»; «A Tragédia – Filha do Génio da Música»; «A Poética da Música em Martin Heidegger»; «Pela Solidariedade»; «”O Rafa e as férias de verão: um mundo de passagem»; «Sobre o “Dia Internacional da Filosofia”», entre outras.

[1] Para uma informação mais pormenorizada, consultar o documento «Currículo Vitae 1984 – 2009».
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
(...)
Álvaro de Campos

Álvaro de Campos, um dos outros de Fernado Pessoa

Álvaro de Campos, um dos outros de Fernado Pessoa
Poema em Linha Reta,
Álvaro de Campos


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que sou vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Sobre Holderlin

Holderlin nasce a 20 de Março de 1770, em Lauffen, junto ao rio Neckar, homenagiado em muitos dos seus poemas. Falece a 7 de Junho de 1843, em Tübingen.
Durante o século XIX o "poeta do poeta», o poeta que encarna a essência da poesia, diría o Filósofo Martin Heiguer, ficou praticamente esquecido.
Porém, Friedrich Nietzsche (para alguns o Filósofo maldito) tem por ele uma grande admiração . Chama-lhe o seu “ liebling Dichter.”
Só em pleno século XX é que a grandiosidade do seu talento e da a sua poesia é redescoberta e valorizada.
Hoje, Hölderlin é considerado um dos maiores poetas líricos da poesia alemã e universal. A sua obra tem na literatura alemã, do fim do século XVIII princípios do XIX ,uma posição autónoma ao lado do Romantismo e do Classicismo de Weimar ( Goethe, Schiller ), então em voga.
Em 1807, este poeta do canto da Pátria, enlouquece para sempre. Nos próximos 36 anos, até à data da sua morte, a 7 de Junho de 1843 , Hölderlin vai ficar entregue aos cuidados de um dos seus grandes admiradores (e sua esposa), o carpinteiro Ernst Zimmers.

Holderlin

Holderlin

«A Canção do Hyperion», Holderlin



«Oh santos génios! Vós caminhais,
lá por cima, em luz, sobre terra suave.
Brilhantes deuses etéreos
Tocam-vos levemente,
Qual os dedos da artista
nas cordas santas

Sem destino, como a criança
Adormecida, os anjos respiram;
Castamente guardado
Em discretos botões,
O espírito floresce-lhes,
Eterno,
E os santos olhos
Vêem em silenciosa
E eterna claridade.

Nós, porém, fomos condenados a errar,
Sem descanso, p’la terra fora.
Ao acaso, de uma
Hora para a outra,
Os homens sofredores
Somem-se e caiem,
Como a água atirada de
Recife para recife,
Ano após ano, na incerteza»

«A Viagem da Vida», Holderlin


«Para o alto forcejava meu espírito,
mas o Amor trouxe-o logo para baixo;
mais ainda
Encurvou-o o sofrimento;
assim, eis que o arco
Da vida me trouxe ao ponto de partida.»

«Um Cego», Jorge Luís Borges



Não sei qual é a face que me mira
quando miro essa face que há no espelho;
e desconheço no reflexo o velho
que o escruta, com silente e exausta ira.
Lento na sombra, com a mão exploro
meus traços invisíveis. Um lampejo
me alcança. O seu cabelo, que entrevejo,
é todo cinza ou é ainda de ouro.
Repito que perdi unicamente
a superfície vã das simples coisas.
Meu consolo é de Milton e é valente,
porém penso nas letras e nas rosas.
Penso que se pudesse ver meu rosto
saberia quem sou neste sol-posto.

Jorge Luís Borges

Jorge Luís Borges
O homem das ficções, dos labirintos, do fantástico, dos caminhos que nem sempre se bifurcam...

«Instantes», Jorge Luís Borges


«Si pudiera vivir nuevamente mi vida.En la próxima trataría de cometer más errores.No intentaría ser tan perfecto, me relajaría más.Sería más tonto de lo que he sido, de hechotomaría muy pocas cosas con seriedad.Sería menos higiénico.Correría más riesgos, haría más viajes, contemplaríamás atardeceres, subiría más montañas, nadaría más ríos.Iría a más lugares adonde nunca he ido, comeríamás helados y menos habas, tendría más problemasreales y menos imaginarios.Yo fui una de esas personas que vivió sensata y prolíficamentecada minuto de su vida; claro que tuve momentos de alegría.Pero si pudiera volver atrás trataría de tenersolamente buenos momentos.Por si no lo saben, de eso está hecha la vida, sólo de momentos;no te pierdas el ahora.Yo era uno de esos que nunca iban a ninguna parte sin termómetro,una bolsa de agua caliente, un paraguas y un paracaídas;Si pudiera volver a vivir, viajaría más liviano.Si pudiera volver a vivir comenzaría a andar descalzo a principiosde la primavera y seguiría así hasta concluir el otoño.Daría más vueltas en calesita, contemplaría más amaneceresy jugaría con más niños, si tuviera otra vez la vida por delante.Pero ya tengo 85 años y sé que me estoy muriendo.», Jorge Luís Borges

Almada Negreiros

Almada Negreiros
«Auto-retrato»

MESTRES


«Sonhei com um país onde todos chegavama Mestres. Começava cada qual por fazer acaneta e o aparo com que se punha àescuta do universo; em seguida, fabricavadesde a matéria-prima o papel onde iaassentando as confidências que recebiadirectamente do universo; depois, desciaaté ao fundo dos rochedos por causa datinta negra dos chocos; gravava letra porletra o tipo com que compunha as suaspalavras; e arrancava da árvore a prensa onde apertava comsegurança as descobertas para irem ter com os outros. Eraassim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assimque os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar aHumanidade.»

Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro

JOSÉ RÉGIO

JOSÉ RÉGIO
Ventura Porfírio, «Poeta de Deus e do Diabo», 1958

«SÓ VOU POR ONDE ME LEVAM OS MEUS PRÓPRIOS PASSO...»



Cântico negro
José Régio


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha
Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio, pseudônimo literário de José Maria dos Reis Pereira, nasceu em Vila do Conde em 1901. Licenciado em Letras em Coimbra, ensinou durante mais de 30 anos no Liceu de Portalegre. Foi um dos fundadores da revista "Presença", e o seu principal animador. Romancista, dramaturgo, ensaísta e crítico, foi, no entanto, como poeta. que primeiramente se impôs e a mais larga audiência depois atingiu. Com o livro de estréia — "Poemas de Deus e do Diabo" (1925) — apresentou quase todo o elenco dos temas que viria a desenvolver nas obras posteriores: os conflitos entre Deus e o Homem, o espírito e a carne, o indivíduo e a sociedade, a consciência da frustração de todo o amor humano, o orgulhoso recurso à solidão, a problemática da sinceridade e do logro perante os outros e perante a si mesmos.

José Régio - "Poema do silêncio"

Sim, foi por mim que gritei,
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.
Foi em meu nome que fiz
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que eu não vi serem necessárias e vós vedes.
Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
Que ergui mais alto o meu grito,
E pedi mais infinito!
Eu, o meu eu rico de vícios e grandezas,
Foi a razão das épi-trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Alevantei com ironia, sonho, e fumo...
O que eu buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febre de Mais, ânsias de Altura e Abismo
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.
E só por me ter vedado
Sair deste meu ser pequeno e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano,
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!
Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés abro o meu seio:
Procurei fugir de mim,
Mas eu bem sei que sou o meu único fim.
Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir,
Sofro por ter prazer em me acusar e em me exibir!
Senhor meu Deus em que não creio porque és minha criação!(Deus, para mim, sou eu - sou eu chegado à perfeição...)Senhor! dá-me o poder de estar calado,
Imóvel, manietado, iluminado!
Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que eu levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!
Também sei bem que embora trabalhando só por mim,
Era por um de nós.
E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.
Mas o meu sonho megalómano é maior
Que a própria dor
De compreender como é supremamente egoísta
A minha máxima conquista!
Senhor! que nunca mais meus versos sôfregos e impuros
Me rasguem, e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...
Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida:
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome!

Um homem de palavras tão escritas quanto sentidas

Um homem de palavras tão escritas quanto sentidas

EUGÉNIO DE ANDRADE: DO AMOR, DAS FLORES E DOS FRUTOS

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!E eu acreditava.Acreditava,porque ao teu ladotodas as coisas eram possíveis.Mas isso era no tempo dos segredos.Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.Era no tempo em que os meus olhoseram os tais peixes verdes.Hoje são apenas os meus olhos.É pouco, mas é verdade:uns olhos como todos os outros.Já gastámos as palavras.Quando agora digo: meu amor...,já não se passa absolutamente nada.E no entanto, antes das palavras gastas,tenho a certezade que todas as coisas estremeciamsó de murmurar o teu nomeno silêncio do meu coração.Não temos já nada para dar.Dentro de tinão há nada que me peça água.O passado é inútil como um trapo.E já te disse: as palavras estão gastas.Adeus

VideoBar

Este conteúdo ainda não se encontra disponível em ligações encriptadas.

Rainer Maria Rilke

Rainer Maria Rilke
O canto e a Salvação da Terra
«Terra que canta trabalhando,
terra feliz de labor querido;
enquanto as águas prosseguem cantando,
a vinha tece o seu tecido, gota a gota.

Terra que se cala porque o silêncio das águas
é puro excesso de silêncio desmedido,
desse silêncio que se cria entre palavras,
essas palavras que, aos ritmos, avançam.»

Rainer Maria Rilke
(«Frutos e Apontamentos»)

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa
Outros do mesmo...

Sobre Fernando Pessoa e seus heterónimos

"Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado, encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não."
"Só uma grande intuição pode ser bússola nos descampados da alma; só com um sentido que usa da inteligência, mas se não assemelha a ela, embora nisto com ela se funda, se pode distinguir estas figuras de sonho na sua realidade de uma a outra."
Alberto Caeiro (1889 - 1915):
Alberto Caeiro é considerado o mestre de todos os heterônimos de Fernando Pessoa. Nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão, nem educação quase alguma, só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia avó. Morreu tuberculoso. Poemas de Alberto Caeiro:
O meu olhar é nítido como um girassol...Pensar em Deus é desobedecer a DeusDa minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo...Num meio-dia de fim de primavera tive um sonho....Sou um guardador de rebanhos...Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois...Se eu morrer novo, sem poder publicar livro nenhum...Assim como falham as palavras quando querem exprimir...Pouco me importa...O Tejo é mais belo
Ricardo Reis (1887 - 1935?):
Ricardo Reis nasceu no Porto. Educado em colégio de jesuítas, é médico e vive no Brasil desde 1919, pois expatriou-se espontaneamente por ser monárquico. É latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Odes de Ricardo Reis:
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio...Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia tinha...Segue o teu destino, rega as tuas plantas...Tão cedo passa tudo quanto passa...Para ser grande, sê inteiro...
Álvaro de Campos (1890 - 1935?):
Nasceu em Tavira, teve uma educação vulgar de Liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Poemas de Álvaro de Campos:
Adiamento: Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...Passagem das horas: Trago dentro do meu coração...Tabacaria: Não sou nada, nunca serei nada...Apontamento: A minha alma partiu-se como um vaso vazio...Aniversário: No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...Magnificat: Quando é que passará esta noite interna...Todas as cartas de amor são ridículas...O Binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo...Poema em linha reta: nunca conheci quem tivesse levado porrada...Encostei-me para trás na cadeira de convés e fechei os olhos...

Amo Pessoa, particularmente Álvaro de Campos, o "engenheiro naval", nascido em Tavira (Algarve, Sul de Portugal), no dia 15 de Outubro de 1980. Escreve «razoavelmente mas com lapsos como dizer “eu próprio” em vez de “eu mesmo”».
«É alto, magro, e um pouco tendente a curvar-se (...) entre o branco e o moreno, cabelo porém liso e normalmente apartado ao lado, monóculo (...). Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o "Opiário". Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre».
Em sintonia está com Bernardo Soares, o autor da «Mensagem», desapartado de Caeiro – «pura e inesperada inspiração» – e de Reis, exemplificação «de uma deliberação abstracta, que subitamente concretiza numa ode».
Mas, «como escrevo em nome dos três?», pergunta Pessoa, a si mesmo, Pessoa ortónimo. A resposta do Poeta é clara em todo o seu aparato enigmático, próprio da heteronomia: «Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. (O meu semi-heterónimo, Bernardo Soares, que aliás em muitas coisa se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela porosa é um constante devaneio (...). Sou eu menos o raciocínio e a afectividade», escreve Fernando Pessoa numa Carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro, sobre a origem dos seus heterónimos, publicada na revista «Presença», Nº 49, Junho, 1937.

Isabel Rosete
13/03/08

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa
As múltiplas faces de um mesmo rosto

VideoBar

Este conteúdo ainda não se encontra disponível em ligações encriptadas.

VideoBar

Este conteúdo ainda não se encontra disponível em ligações encriptadas.