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domingo, 19 de maio de 2013

PEREGRINOS, Por Isabel Rosete



Escrevo, quase chorando,
Num cubículo, quase fechado,
Do meu apartamento
Com grandes janelas
Por onde entra quase toda a luz possível.

Agora, já-já, vou sair,
Caminhar, lá fora,
À luz directa do Sol desanuviado,
Pelas ruas da minha cidade,
A dos Ílhavos, navegantes por muitas
E longas paragens.

Sinto-me como uma peregrina,
Tal como eles e tal como tu, Van Gogh,
Em tantos mares,
Em tantos caminhos do campo,
Sem navio e sem cavalete,
Sem leme e sem uma variada paleta de cores.

Só tenho inspiração, papel e lápis
Para me escrever,
Depois de me passear
Com a minha cadela, ao lado e atrás dela.

Cada um dos meus poemas é um dos Diários de Bordo,
Onde os Ílhavos deixaram o seu rasto;
Cada um dos meus poemas é uma das tuas telas, Van Gogh,
Onde também te escreves-te,
Tal como nas tuas cartas, ao teu irmão Theo,
O teu confessor e protector;
O deles, o Nosso Senhor dos Navegantes ‑
Não sei se também o meu! ‑
Ali, exposto em imagem,
Na Igreja Matriz de Ílhavo,
A quem veneram por os ter salvado da morte no mar.

A ti, Van Gogh, ninguém te salvou!
A mim, se eu não me salvar,
Alguém me salvará?

Tenho esperança nesses braços abertos
De sinceridade e de salvação desse outro ‑
Não sei quem seja! ­
Aí, diante de mim,
Não com olhos de pena,
Mas com olhos de dádiva
Erguidos, no Aberto,
Para que uma nova Vida me bafeje,
Longe destas mágoas,
Deste meu desfazer constante,
Deste meu complexo de alma-corpo
Tão martirizado quanto o teu e o deles,
Nesses mares mais tormentosos do que mansos,
Nesses campos de solidão,
Em luta pela Vida.

Que a Morte me espere!
Eu não quero esperar por ela.

Até já!

Isabel Rosete
Imagem: Jardim Oudinot, Ílhavo, Navio Museu Santo André
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