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sexta-feira, 27 de maio de 2011


PALESTRA DA APRESENTAÇÃO DO LIVRO «ÁGUAS DE TERNURA» DE ANTÓNIO MARTINS

Por Isabel Rosete

Estamos aqui reunidos para celebrar a Poesia. Sempre que um poeta nos dá a conhecer a sua obra, é a Poesia e a sua poesia que se torna a protagonista do palco onde a ouvimos e a expomos.

Trago-vos hoje «Águas de Ternura», um livro de poemas de António Martins, a quem agradeço o convite endereçado, que muito me honra. Analisei-o em todos os seus pormenores, nos seus mais finos detalhes, seguindo, ao mesmo tempo, pela interpretação de numa visão alargada dos temas que nela me parecem ser fundamentais.

O que vos vou apresentar é, obviamente, a minha leitura, uma leitura possível entre muitas outras, que pode ou não coincidir com a perspectiva interpretativa do autor sobre a sua própria obra (o escritor é sempre um leitor da sua escrita) ou com os pontos de vista de cada um de vós. Uma apresentação de um livro é apenas uma visão particular emersa da identidade de quem o lê, sente ou escuta. Portanto, jamais uma anteposição ou uma sobreposição.

Centro-me nas mensagens essenciais que ela fez nascer em mim, quer como cidadã, quer como amante da poesia que estudo e escrevo há alguns anos. São mensagens de nobres valores declaradamente conta os anti-valores, ou valores negativos, que comandam, cada vez mais (lamentavelmente), muitos dos seres humanos degenerados que caminham, desviados e desvirtuados, por este mundo que é “tão louco”, tal como o próprio autor afirma.

Neste contexto, refere-se àqueles que exploram as gentes humildes que por si só vivem, ou que imploram tão-só pela sua mera sobrevivência. E ajudar não custa, frisa António Martins, desde que haja um carinho franco, uma intenção autêntica, um sorriso que lhes refresque as mentes abandonadas, sós, e lhes traga a Felicidade que realmente merecem.

«Àguas de Trenura» é uma composição de poemas simples. Porém, note-se que o adjectivo “simples” é empregue no seu sentido mais nobre e enriquecedor. A poesia não precisa, de facto, de palavras rebuscadas, ininteligíveis para muitos, para dizer o pensar, o sentir, as memórias, os sonhos ou os desabafos da alma. Apenas requere as palavras que o seu autor encontrou dentro de si mesmo para o manifestar, que só podem ser aquelas e não outras, porque só essas dizem as coisas como elas realmente são no seu devido lugar, sem enfoques desnecessários.

A Poesia não comporta, nem suporta, na sua essência originária, os dizeres retóricos, demagógicos, que ludibriam os espíritos com “belos” vocábulos propagandistas vazios de conteúdo. Na Poesia presentifica-se (assim o deve ser) o poder primordial do Verbo, no seu sentido ontológico, esse que faz nascer as coisas sempre que elas são nomeadas. Assim a vemos brotar neste livro de António Martins, que recomendo, acessível a todo o tipo de leitores, nunca enganados por qualquer espécie de feitiços da linguagem.

Nele voam pássaros de todas as cores. A discriminação aniquila-se, ao mesmo tempo que se enaltece a Liberdade. São pássaros azuis que nos conduzem ao infinito de todas os horizontes sem linhas determinativas, encantados nos seus movimentos de alegria. Exuberantes, fazem-nos ouvir as suas melodias em cantos de melaço. Pássaros valentes, como todos nós devemos ser, porque, mal ou bem, sabemos que o futuro ainda não morreu, que os nobres feitos dos homens ainda não foram todos conquistados, que nem tudo está realizado, que a nossa caminhada ainda não chegou ao fim que lhe está determinado pelos segredos do Universo, nem sempre ao nosso alcance. Há o Mistério, o Enigma, o Acaso. Contudo, é sempre tempo, frisa António Martins, de nascer para uma vida de qualquer cor no intuito de encontrar o puro amor. A dedicatória deste livro é, sem dúvida, afirmativa desta tese: «À vida/e aos seus desígnios/com que ela nos brinda».

A Vida! Ai a Vida e as nossas vidas de que sempre fala a Poesia de um modo tão concreto quanto determinado em todos os seus visos possíveis! Se a vida é bela, deliciosa, entusiasmante, o estímulo da continuidade da nossa existência, também é, contudo, composta de lágrimas. Lágrimas que brotam de uma “mente desfeita”, que nascem quando se quebra uma ilusão. A vida dá-se igualmente na sua tristeza que não é, contudo, para o poeta, o motor de qualquer espécie de negatividade, a não ser imediata, porque é a jorrante fonte da alegria que acaba por imperar.

António Martins sabe, com mestria, erguer do mais miseravelmente humano, porque envolto pela ternura, o que de mais nobre e de exaltante albergam os homens nas suas entranhas. E assim acontece com as lágrimas que se são de tristeza ou de amargura, também podem ser de alegria ou de glória. As lágrimas surgem como uma metáfora da água cristalina saída das fontes ainda castas, como se tivemos sentimentos em estado líquido, jamais congelados que, apesar de tudo, ainda conservam essa pureza inicial que combate os ignóbeis sentires de muitos dos nossos pares.

“Brota a água da Fonte” (p.24), o poema que dá o mote a este livro. É um verdadeiro hino à água imaculada, à água que como dizia o filósofo pré-socrático,Tales de Mileto, é a origem de todas as coisas. Com ela tudo nasce, cresce e se vivifica; sem ela, tudo definha e morre na sua mais intensa agonia.

A água, “de terno e bom sabor” é, para o poeta, sinónimo de liberdade e de magia; é diáspora da felicidade, melodia e poesia, purificação, qual líquido precioso que nos eleva ao deleite e nos torna seres majestosos; é benfazeja no futuro suor da terra, por mais humilde que seja (“Ciclos da vida”).

Para além de exaltar a água, um dos quatro elementos primordiais, também celebra a Terra no seu cheiro, sabor e frescura, igualmente o Ar, o terceiro elemento, de que falava Anaxímenes, também como “arché” ou “princípio” (assim se deve traduzir o termo grego), origem de todos os seres vivos, fonte da sua respiração vital, tal como o podemos observar no poema “Sabor da terra” (p. 28).

António Martins não se esquece, neste poema, das várias faces da terra, as estações do ano, nomeando, em particular o Outono e a Primavera. Esta pelo consolo do arvoredo húmido; aquela pela chuva que se colhe.

A terra, que tanto mal tratamos, é consagrada pela riqueza que gera, por permitir a fuga ao degredo; pelo sustento que nos doa, sem mácula, qual lugar onde nos revigoramos, não obstante os insultos que lhe movemos, muitas das vezes, sem dó. Nela também surge o amor que supera a dor, fortalece e constrói.

O poeta confessa-nos ser fustigado pelas “brutais pancadas da vida” (p.55) que marcaram com nódoas negras a intimidade do seu sentir, acusando, neste ponto, a não preservação, por muitos, dos grandes valores da pessoa humana: a identidade e a diferença. Assim o foi/é a vida para o poeta e para todos. Neste caso, a questão é social, perante a qual ergue a sua voz legitimamente crítica.

A sociedade tem esse condão sarcástico e castrador de dilacerar as virtudes com que nascemos, de ensombrar a jovialidade que, cedo, se perde, não nos deixando colher o que de bom grado semeámos. No entanto, há sempre algo de bom que nos fica de todas as pancadas, de todas as nódoas negras: o amor, a esperança, os momentos de felicidade vividos, a “amizade de valor”, como uma estrela cintilante que brilha e dá sentido á vida na sua amargura. Também os sorrisos sinceros, a gentileza de algumas almas puras, a graciosidade que fica em nós das pessoas que nos são realmente queridas, aquelas que nos acompanham em todos os momentos da nossa existência e que sabemos que nunca partem.

E, deste modo, volta a surgir essa alegria, de que tanto fala António Martins ao longo deste livro, a qual redobra o ânimo redentor de continuar vivo, de continuar com a Vida intensamente, mesmo que se pressuponha que o ciclo da dor possa voltar a qualquer momento. Temos, de novo, o contraste vencido: há a doçura do mel que a abelha arquiteta a partir das flores, que nunca negam essa sua dádiva natural, nessa comunhão perfeita que a Natureza fertiliza. Eis onde a Vida torna a renascer no seu mais encantatório estado de Graça, no mistério da existência que assoma, mais uma vez, nos seus opostos conciliáveis que, de alguma maneira, nos permite fugir á apatia na firmeza da palavra poética, caminhar no rumo mais direito, mais certo, abraçando os mais dignos valores e os mais nobres pensamentos. Assim se pode ler no poema «A flor, a abelha e o mel» (p. 60).

É, neste contexto, que se pode compreender o apelo deixado por António Martins a todos os seus leitores no poema “Existe a força que vem de nós”, (p. 67):

“Lutemos com as nossas mãos

Pela força que vem da mente

E com a arma que nos pertence.

Urge quanto antes decidir

Que neste mundo de interesses

A coragem da razão é que vence.”



A alma deste poeta de Lisboa que ama Aveiro de um modo especial – e por isso também o devemos saudar por sempre nos brindar com a sua poesia apresenta-se, de facto, indignada, manifestando-o claramente em “Perturbações e envolvências”, um poema da página 42. Mas indignado com o quê, por detrás deste seu viso de homem sereno? Poderão perguntar os seus futuros leitores. Obviamente pelas perturbações que no mesmo enumera:

• Os desleixos de um sentir descontrolado que é desabafo inusitado;

• As ervas daninhas;

• Os seres conflituosos que tudo aniquilam para ficarem famosos, não olhando os meios para atingir fins (e há tantos!);

• Os lixos, humanos ou não, de que este mundo se compõe;

• As meretrizes disfarçadas de rainhas;

• Os maus quereres.

Mesmo assim, o poeta nunca se despede. Mantém-se sempre em nós, sejamos estes ou o contrário de todos estes, porque nos doa incondicionalmente o seu “Abraço profundo” (p. 38).

Por entre este valores e anti-valores, a mensagem de António Martins é clara: urge restaurar a lucidez e, com ela, pautarmos todos os nossos pensamentos e comportamentos, percorrendo os caminhos, no nosso peregrinar tão eterno quanto efémero, com confiança, no aconchego do amor, conscientes de que não há suspiro que disfarce o seu puro sentido; urge movermo-nos no miolo da sensação que recusa as vulgares aparências, adulteradoras do Ser; urge saudar a fertilidade da mente nos seus contrastes, com os seus pensamentos infinitos, eliminando os dolentes, os maldosos, traçados pelo ódio e pela vingança e, ao invés, saudar e salvar os bondosos, fortalecedores de uniões e alianças, e os incógnitos, como mistérios a revelar.

«Águas de Ternura» é um livro intimista, se o perspectivamos à luz de outros poemas como “Dar e receber amor” (p.12) ou “Valor inesquecível” (p. 42).

No primeiro, fála-se do Amor de um modo muito peculiar, desse amor em estado virgem sem obsessões ou paranóias (quando se torna patológico) – desse sentimento universal, dado em várias formas de outros sentimentos que integra, que ocupa o Espírito dos poetas, que sempre por eles é cantado em forma de hino ou de elegia. No segundo, desvela os seus mais íntimos sentimentos dirigidos á sua princesa (quem será?), a quem dedica esses seus versos.

O que nos diz António Martins sobre o Amor?

O Amor (este Amor do poeta) solicita, em primeiro lugar, a reciprocidade do dar e do receber, rejeitando, de imediato, o egoísmo, sem com isso negar a individualidade ou identidade conjunta dos pares.

No amor impera, amiúde, a parcialidade do eu perante o outro e, por isso, ele falha, aborta. Esperamos somente receber, mas não retribuímos como uma dádiva o que nos é singelamente concedido pelo outro que nos ama. O inverso, todos o sabemos, é igualmente corrente. Esta forma de amar seria denominada de imperfeita.

O Amor só será perfeito, puro e genuíno, alerta-nos o autor, se for pautado pela dialéctica da complementaridade do “Dar e receber” constante, refiramo-nos ao amor conjugal, ao filial, ao maternal, paternal, ou ao amor entre os Homens, os Povos, as Nações.

O amor deve ser o sentimento que une e não o que separa, a mais forte aliança, que trás a prosperidade e a ventura e não, nunca, a dor ou a angústia. Por isso, associa o amor ao sonho, em estado de vigília ou de sono, de uma vida de comunhão que é um caminhar perpétuo na presença e na partilha perene do outro amado, na sua memória sempre presente, para quem haverá sempre um sorriso de encantamento, seguramente, uma “mais-valia”, um “aconchego toda a hora”.

Por último, resta-nos perguntar: E o poeta, António Martins, quem é? Como é? Como se apresenta a si próprio e aos seus leitores?

Para que sobre ele não divaguemos, para que sobre ele não digamos o que ele não é, teve o cuidado de, nesta sua obra, nos deixar o seu auto-retrato, assim o interpreto, no poema “Sou não sendo aquilo que sou” (pp.69-70), um poema de amor, um poema existencialista, onde se apresenta e caracteriza, onde deixa, como deve ser, a marca da sua identidade específica.


Isabel Rosete

6 de Maio de 2011











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