sábado, 18 de abril de 2009

Revolta

Aniquilemos
Todos os opressores,
Todos os vendedores
De banha-da-cobra,
Todos os retóricos,
Todos os sofistas.

Recusemos
O parecer-ser,
A vulgaridade instituída,
Pelo consumismo exacerbado,
A identidade imposta,
Que nos devora as entranhas.

Soltemos
Todas as máscaras,
En-cobertas,
Todos os visos,
De-formados
Pela glória das estátuas amputadas,
Pelo sopro sórdido
Das vozes maledicentes.

Criemos
Um Mundo novo,
Uma outra escala de valores,
Sem freios totalitários,
Sem sombras escusas,
Sem opacos véus.

Pairemos
Sobre as Estrelas,
Fontes das essências,
Camufladas pela trivialidade
Das vivências des-norteadas,
Das mentes bi-céfalas.

Alimentemos
O Pensamento do Ser,
Fundamento do des-abrochar
De todas as coisas,
Nascente musical,
De todos sons eternos.

Isabel Rosete

sábado, 11 de abril de 2009

A Solidão
Percorre as almas desertas,
E,
Sorve a Esperança
De um outro re-nascer,
Sempre re-novado.
Extingue a fantasia,
E,
O sonho de outras idades.

Anuncia a morte
De um ser re-vigorado.
Corrói as entranhas da Vida,
Até ao liminar da Morte,
E,
Da Eternidade.

Desperta o vazio da Ex-istência,
Em torno da sua efemeridade.
Consolida a massa compacta
Dos espíritos amortecidos,
E,
Des-animados.

Dissipa a luz
De um novo horizonte,
E,
Definha cada ser,
No seu pedaço de Nada.

Isabel Rosete
Advém o turbilhão dos sentidos,
Dos desejos e dos quereres,
Dos seres e dos estares,
Inquietantes,
Alarmantes,
Libinidalmente disseminados.

Uma ansiedade,
Desmedida,
Percorre a minha alma.
Um desassossego,
Insuportável,
Remove-me as vísceras.

O alvoroço,
Perpetua-se.
A impulsividade,
Eterniza-se.
O sobressalto,
Esmaga-me.

Des-constroem-se,
Todos os pedaços de mim.
Sobrevivem, apenas, fragmentos,
Parcelas,
Indistintas,
Em pleno estado de com-bustão,
Acelerada.

Subsistem,
Peças soltas,
Difusas,
Em des-ordem,
Em com-fusão,
Em dis-persão…

Isabel Rosete
A magia da música
Eleva-me a alma,
Exalta-me os sentidos,
Dobra-me o corpo,
Em mil retalhos,
Espalhados,
Despedaçados…
Por todos os lugares;

Excita-me os músculos,
Incita-os ao movimento,
Ritmado e
Desordenado e
Desconexo e
Conjugado e
Conjunturado…
De cada melodia.

A magia da música
Celebra a embriaguez,
Catártica,
De todos os cânticos
De Nascimento e de Morte.

A magia da música
Tudo transforma,
Faz mover,
Vibrar,
Sonhar…
Penetra em todos os espaços,
Ultrapassa o Tempo,
E o limiar da Eternidade…

Isabel Rosete

quinta-feira, 5 de março de 2009

Meros farrapos
Nos tornámos,
Nós, os pretensos
Arautos da Razão.

Razão!?
O que é a Razão?
Não sabeis, pois não?

A palavra degenerou-se,
Gastou-se,
Transmutou-se para um outro,
Que jamais é o outro de si mesma.

Continuamos a carregar este rótulo,
O de sermos racionais,
Cada vez mais vazio,
Cada vez mais insano...

Não é Justiça que nos move,
Não é o Bom-Senso que nos determina,
Não é a Ética que nos rege!...

O que nos alimenta
Ou des-nutre,
Sobe o nome da Razão?

A demagogia e a retórica,
Degeneradas;
O poder e a ambição,
Des-medidas;
A intolerância e a discriminação,
Arrogantes,
Sem fundamento plausível.

É nisto, Homem,
Movido pelas escaldantes farpas do Demo,
Que te transformas-te,
Por conta própria.

Isabel Rosete
Silêncios políticos

Um Silêncio remoto
Comanda a voz da oposição.
Um rosto vazio de esperança
Apresenta-se ao País.

Sem convicção
Nem persuasão,
Nos movemos,
Como se a causa
Pela qual lutamos,
Já estivesse perdida.

Qual causa?
Qual luta?

Se sabeis a resposta,
Dizei-me,
Por favor,
Porque não a vislumbro.

Isabel Rosete
Sinto-me só,
Num espaço atopos.

Não amo a ilusão do Nada,
Mas a solidão do Tudo.

Isabel Rosete
Portugal: Uma Pátria desolada nos confins da Europa. Outrora, vitoriosa, no “reino cadaveroso da cultura”.
Portugal: um Povo, uma massa de gente deslumbrada, com outros modos de fazer mundos, com os Mundos de outras Pátrias, não perdidas nas marés do assombro.

Isabel Rosete

A Guerra, sempre a Guerra, em nome da Paz! …

Pátrias desoladas pelos horrores da Guerra. Corpos despedaçados cobrem a Terra com um manto vermelho. O sangue tinge as águas, daqueles que foram e não mais voltaram. Almas ultrajadas vagueiam por este Universo incógnito, sem Destino.

Uma criança chora, a preto e branco. Outra soluça, de olhos esbugalhados pelo horror, ao mesmo tempo que se esconde dos Homens de verdes fardas, que correm, de arma em punho, para todos os lugares, pelo sórdido prazer da morte e do sangue. Já não têm Fé, nem Paz, nem Amor, nem Esperança, nem Nada… Já não sabem que são humanos!
Movem-se como autómatos. Tornam-se meras máquinas programadas para matar, indiscriminadamente. A Guerra torna-se um vício, um hábito enraizado, qual nicotina, cuja ausência desatina.

Não há mais um lar habitável, para além deste cenário de todas as desgraças. Restam as trincheiras, os campos de batalha, onde a morte de uns é a vida de outros.

Violência e mais violência… Atrocidades e mais atrocidades… movem um ciclo completamente vicioso, sem princípio nem fim. A agressividade é a marca perpétua dos espíritos robotizados dos fazedores da Guerra.

Fazer Guerra para alcançar a Paz, dizem os mentores dos pseudo-projectos de salvação da Humanidade. Que grande ironia! Que tremenda hipocrisia desses espíritos insanos!

A Guerra é o chamamento, sem fim, das mentes desejosas de expulsar a agressividade, durante anos contida, a violência, sempre reprimida, recalcada pelo convencional, pelo instituído, pelo “politicamente correcto”, nem sempre com fundamento válidamente visível.

Como queria ser Deus! Ah, como queria ser Deus! O Todo-Poderoso, aquele que tudo pode, para aniquilar essa face negra do coração dos homens.



Isabel Rosete
O destino desloca-me.
Não sei para onde vou!

Caminho por todas as estradas.
Não encontro o meu rumo!

Vagueio pelos trilhos do Pensamento.
Não me reconheço mais!

Procuro a serenidade nos olhares dos outros.
Não encontro o seu verdadeiro viso!

Ergo-me, magnânime, afirmando a minha identidade.
Não escuto senão a dissimulada hipocrisia!

Isabel Rosete