terça-feira, 28 de maio de 2013

COISAS VÁRIAS, por IR (semi-heterónimo de Isabel Rosete)




‑ Até posso ser uma personagem de um filme,
Não realizado;
‑ Até posso ser uma personagem de um romance,
Não escrito;
‑ Até posso ser uma actriz, sem papel,
Em qualquer peça de teatro,
Não concluída;
‑ Até posso ser uma das faces da Lua,
Não revelada;
‑ Até posso ser um raio de Sol,
Não iluminado;
‑ Até posso ser um borrão de tinta-da-china
Espalhado por uma grande folha de papel
Em branco;
‑ Até posso ser um quadro de Van Gogh,
Onde o Semeador lança as suas sementes,
Em Terra fértil;
‑ Até posso ser um marco do correio,
Aquele ali da esquina,
Onde a Amélia coloca, todos os dias, as cartas
Para o seu amante,
Que navega nos confins dos oceanos;

‑ Até posso ser um tronco seco
Daquele carvalho velho que habita,
Há gerações, no meu jardim,
‑ Até posso ser aquele molho de girassóis,
Que cobre, de amarelo,
Os terrenos da minha quinta
Que não existe;
‑ Até posso ser todos os velhos
Que deixaram partir os barcos,
Que já não partem;
‑ Até posso ser os Adamastor(es),
Que já não assombram os mares;
‑ Até posso ser um Fernando Pessoa
Nestes versos lançados ao mar
Na “Lisboa Revisitada”
Pelos turistas ingleses
Que não percebem o que eu escrevo;
‑ Até posso ser um génio, agora brotante,
Da Poesia Portuguesa Contemporânea,
Mesmo que ninguém leia os meus versos
Em canto órfico, em canções de fado…
Sem rima propositada.

IR,
Ílhavo, 02/12/2012

domingo, 19 de maio de 2013

A Poesia, por Isabel Rosete



A Poesia, qual desabafo da Alma-Corpo de alguns seres humanos, sempre nos chama e clama, indeterminada e incondicionalmente; sempre nos acolhe e recolhe em todas as momentos da nossa Existência de prazer ou de felicidade, de tristeza ou de infortúnio, de glória ou de satisfação.
As palavras movem-nos e comovem-nos; chamam-nos, apelam-nos, para ver o invisível, para escutar o que, por vezes, nos parece inaudível, para cheirar e saborear o que é e há de mais puro e mais genuíno neste Universo imenso da Sensibilidade, da Inteligência, da Racionalidade e das Emoções que, naturalmente, somos.
A palavra poética é o espelho, de vivo e intenso reflexo autêntico, do Homem, da Natureza, do Mundo, de todas as coisas que são, que já foram ou que, ainda, serão. Não tem tempo! Não tem idade! É sempre jovem, actual e pertinente! Nunca envelhece!
A Poesia é – por estas e por outras razões que lhe estão patentes e não precisamos, portanto, de enumerar – a grande arma da Revolução, da Construção, da Criação, da Invenção, num crescendo continuado, que vai ao Infinito, ultrapassando todas as fronteiras possíveis do Tempo e do Espaço, que nela se perpetuam, ad eternum.
Sejamos poetas de Corpo e Alma!

Isabel Rosete

PEREGRINOS, Por Isabel Rosete



Escrevo, quase chorando,
Num cubículo, quase fechado,
Do meu apartamento
Com grandes janelas
Por onde entra quase toda a luz possível.

Agora, já-já, vou sair,
Caminhar, lá fora,
À luz directa do Sol desanuviado,
Pelas ruas da minha cidade,
A dos Ílhavos, navegantes por muitas
E longas paragens.

Sinto-me como uma peregrina,
Tal como eles e tal como tu, Van Gogh,
Em tantos mares,
Em tantos caminhos do campo,
Sem navio e sem cavalete,
Sem leme e sem uma variada paleta de cores.

Só tenho inspiração, papel e lápis
Para me escrever,
Depois de me passear
Com a minha cadela, ao lado e atrás dela.

Cada um dos meus poemas é um dos Diários de Bordo,
Onde os Ílhavos deixaram o seu rasto;
Cada um dos meus poemas é uma das tuas telas, Van Gogh,
Onde também te escreves-te,
Tal como nas tuas cartas, ao teu irmão Theo,
O teu confessor e protector;
O deles, o Nosso Senhor dos Navegantes ‑
Não sei se também o meu! ‑
Ali, exposto em imagem,
Na Igreja Matriz de Ílhavo,
A quem veneram por os ter salvado da morte no mar.

A ti, Van Gogh, ninguém te salvou!
A mim, se eu não me salvar,
Alguém me salvará?

Tenho esperança nesses braços abertos
De sinceridade e de salvação desse outro ‑
Não sei quem seja! ­
Aí, diante de mim,
Não com olhos de pena,
Mas com olhos de dádiva
Erguidos, no Aberto,
Para que uma nova Vida me bafeje,
Longe destas mágoas,
Deste meu desfazer constante,
Deste meu complexo de alma-corpo
Tão martirizado quanto o teu e o deles,
Nesses mares mais tormentosos do que mansos,
Nesses campos de solidão,
Em luta pela Vida.

Que a Morte me espere!
Eu não quero esperar por ela.

Até já!

Isabel Rosete
Imagem: Jardim Oudinot, Ílhavo, Navio Museu Santo André
HOMENS-DE-BARRO, por Isabel Rosete

Ah, os Olhos dos Homens-de-Barro,
Filhos legítimos da Terra!
Aonde estão?

Os Olhos dos Homens-de-Barro
Caem-me nas mãos 
Mesmo que criados por Deus 
Com a grande dádiva do Ver.

Também falam e escutam:
Falam das entranhas nunca vistas;
Escutam todas aquelas vozes,
Há muito silenciadas, e dizem-nas,
E repetem-nas,
Para que nunca mais deixem de ser ouvidas.

Oh, Olhos videntes do invisível
Que tudo vedes por dentro!
Nunca vos cansais de Ver?

Oh, projectivas Vozes anunciadoras
De todas as realidades futuras,
Alertas do que há ainda por des-velar
Neste mundo de esconderijos!
Não vos caleis nunca mais?

Isabel Rosete
Pintura: Salvador Dali

quarta-feira, 15 de maio de 2013

CAIXAS E CAIXINHAS, por IR (semi-heterónimo de Isabel Rosete)




Pensei em seguir viagem,
Mesmo não sabendo para onde quero ir.
Viajar é preciso!
O caminho de agora já não é o meu caminho.

Estou cansada destes cantos e recantos
Onde me afundo, todos os dias,
Nas gavetas do meu Pensamento
Com os ferrolhos da Imaginação,
Em tantas outras gavetas
Onde mora, aberta, a minha Emoção.

Abri os armários da minha Inquietude,
Em trajes vários;
Abri as caixas e as caixinhas
Dispostas, com precisão,
Na ordem das cores.
Mas, há sempre uma gaveta desarrumada,
Aquela onde está depositada
A Desordem da Ordem da minha (des)arrumação!

Preciso dela, ali,
Com objectos vários,
Sem nexo (aparente) entre eles,
Sem comunidade de essência,
Remexidos, sempre remexidos, em con-fusão.

Arrumo-me na minha des-arrumação
De obsessão de organização,
Viajando nos contratempos da des-ordem ordenada;
Consumo-me em pormenores
De formas e cores, em alinhamento.

Mas, há sempre a gaveta desarrumada
Nesses cantos e recantos do meu coração cansado
De fortes sentires indignados.

Passo pelas viagens em sonho viajadas
Na vigília do sono que não vem
Porque arrumar é imperativo.

IR
Ílhavo, 24/02/2013
Pintura: Magritte


IMPOSIÇÕES, por Isabel Rosete




Não me queiram impor catecismos,
Cartilhas de qualquer espécie;
Não me queiram converter
A nenhuma religião,
A nenhuma crença,
A nenhuma facção partidária.
Já vos disse: NÃO QUERO!

Não me queiram vencer pelas normas sociais
Ou pela dita moral instituída,
Ou pelas modas ideológicas,
Ou pelas correntes filosóficas em voga.
Já vos disse: NÃO QUERO!

Não me queiram calar a minha Boca,
Sabotar a minha Língua,
Fechar os meus Ouvidos,
Tornar a minha Visão cega.
Já vos disse: NÃO SEREIS CAPAZES!

Não me queiram converter em freira,
Esposa de Deus com aliança no dedo,
Aprisionar-me o espírito,
Castrar-me a matéria.
Já vos disse: NÃO SEREIS CAPAZES!

­ Se ainda não sabeis:
SOU LÚCIDA!
­ Se ainda não sabeis:
SOU LIVRE!

Isabel Rosete

domingo, 12 de maio de 2013

MALES, por Isabel Rosete


Que para bem longe vá

A Hipocrisia pestilenta,

Que transfigura a verdadeira

Face da Humanidade;

Que para bem longe vá

O Fútil reino das aparências,

Que ofusca os olhos inocentes;

Que para bem longe vá

A língua perversa das mentes execráveis,

Sem bom-senso, nem ordem;

Que para bem longe vá

A falsa caridade dos oportunistas,

Mergulhados no seu diabólico egocentrismo.

Isabel Rosete