sexta-feira, 1 de junho de 2012


"PÁGINAS EM BRANCO", por Isabel Rosete

«Escrevo naquelas páginas deixadas em branco
No meu bloco de notas
- Quase gasto -
Aquando desse teu silêncio insuportável
Que me sufoca o pensamento,
Que me torna a imaginação débil
E as minhas mãos estremecidas
- Quase inaptas.

Escrevo naquelas páginas deixadas em branco
No papel pardo pela ausência do teu amor
- Quase desfeito -
Aquando da lembrança da doçura daquele teu beijo
Sempre esperado no meu colo quente,
- Quase desfeito.

De repente, chegas, no teu silêncio aprazível.
Tudo se preenche nesse mesmo instante.
Adormeço, serena, com a minha cabeça pousada
No teu ombro forte, amparo dos meus sonhos
- Quase perfeitos."

Isabel Rosete

quinta-feira, 17 de maio de 2012


"Vozes do Pensamento" de Isabel Rosete
 
«Isabel Rosete apresentou no passado dia 8 de Maio, no Salão Nobre da Junta de Freguesia de S. Salvador, a sua obra literária intitulada "Vozes do Pensamento", cerimónia intimista preparada ao pormenor e impregnada de incensos e simbolismo, momento sublime a que as canções de Zeca Afonso na voz extraordinária de Vítor Almeida e Silva deram mais encanto e emoção em interpretações de O Andarilho que nos atrevemos a rotular de magistrais.
Vozes do Pensamento, «livro de poemas de procura ontológica da prof. Isabel Rosete, começa com referências a três vozes que nem a mais cordata transcultura desejaria ligar, três vozes distintas, as de Rilke, Nietzche e Heidegger. Sobretudo a do último, porquanto a autora, numa tese que elaborou, percebeu nele uma preocupação onto-eco-artística (palavras suas) estando ciente de que compreender a filosofia de Martin Heidegger não significa apenas alterar a nossa mundivisão, mas também entender a própria Poesia como palavra do Ser no Tempo», assim começaria por classificar a "obra" o seu apresentador, JT Parreira, também ele brilhante numa apreciação meticulosa e profunda.
«Isabel Rosete costuma dizer que partiu da Filosofia para a Poesia. Se quiséssemos elaborar aqui sobre um topos, diríamos que a poeta partiu com bilhete de ida-e-volta da Floresta Negra para os horizontes escarpados de Duíno (onde Rilke se recolheu para escutar a poesia) e voltou ao lugar heideggeriano da sua origem. E dele terá partido, é a minha simples hermenêutica, para o que o filósofo germânico nunca deixou de nos propor: uma meditação ontológica» - palavras a reter de JT Parreira para que possamos entender melhor este livro de poesia de Isabel Rosete, numa leitura mais atenta e íntima. «Porque este volume de poemas, digo-o desde já, procura a Poesia/o fazer poético/ no oxímoro que é contingência e a essencialidade do Ser», numa análise em que JT Parreira salienta «o Ser, para além das aparências; a transparência, para além da hipocrisia», citando a própria autora.
«Nestes versos Isabel Rosete fala da alma, da sua alma. E a sua alma exposta é a chave. Além do mais, é uma alma generosa, porque vê para fora de si própria» - diz-nos JT Parreira na sua análise que abre muitas janelas a uma leitura que se quererá muito atenta.
Deste acto de elevação cultural surpreendente, fica o convite à descoberta deste «livro que tem várias chaves, claro que no sentido pessoano do Álvaro de Campos para abrir portas em paredes sem porta», uma vez mais numa citação de JT Parreira que nos presenteou, na sua profunda análise e interessante apresentação da "obra" de Isabel Rosete, um autêntico "tratado de filosofia".
«Vozes do Pensamento é uma obra para mentes livres e abertas, em nome do sempre novo e do Diálogo sem pré-conceitos; em nome da Identidade e da Diferença, apanágio dos Espíritos Críticos. Na aura das essências, se move esta escrita, numa procura constante pela Verdade, para além das aparências, e pela Transparência, para além da Hipocrisia. A autora caminha em demanda pela chama originária que acende e ilumina o mais genuíno, o mais puro, o mais autêntico…» - do Convite que nos levou à apresentação da "obra" de Isabel Rosete.»

Torrão Sacramento

segunda-feira, 14 de maio de 2012


"LABIRINTOS", por Isabel Rosete
 
«A pureza do sonho une-se com a candura da realidade,
Poupando os eternos Mistérios do Mundo,
Conversando os mais recônditos desígnios da Natureza
Abraçada pelos Homens em toda a sua dignidade.
Tudo se arrecada no mesmo lugar do eterno retorno
De cada trilho da cerrada floresta imensa
- que já não é negra -
Nas encruzilhadas onde nem sempre se bifurcam.


O amor pela Natureza desfaz os intermináveis labirintos
Sem saída, onde já não repousa o touro de Minos.
Só Ariadne continua como guia, desfiando o seu vestido,
Apontando a direcção do caminho certo e seguro.
A Humanidade está a salvo de qualquer perigo.

O princípio e o fim tocam-se na incorruptível união
Do finito e do infinito dos diversos modos do Ser
Se dar em órbitas perfeitas.
Os Homens comovem-se nesta fusão,
Celebrando e abrigando os hinos que se soltam
Por entre as montanhas mais próximas,
Quanto distantes no eco das vozes que os chamam:
- O canto dos pássaros;
- O sussurro dos rios;
- O balbuciar das árvores
E das flores frescas da Primavera renovada.

Dá-se a Paz no silêncio da Música celeste.
O divino e o humano recolhem-se
No mesmo tempo e no mesmo espaço.
A Terra e o Céu tornam-se um só.
Os homens e os deuses co-habitam o mesmo lugar.

Nasce a grande esfera concêntrica
Que ampara os Homens nas grandes paredes
De vidro transparente deste Universo incógnito.

Afasta-se o Nada, o Vazio, que desterram
Os espíritos vagantes por paragens longínquas,
Ainda não existentes, apenas sonhadas;
Presentifica-se o Ser, mostra-se o cheio
Da completude da Existência;
Ergue-se a Luz originária que nos ilumina,
Antes do Sol se pôr mais uma vez;
Reluz o Mar azul e verde em todos os seus reflexos,
Ao longe, até onde a nossa vista alcança;
As águas funde-se com o horizonte em cores de fogo aceso.»

Isabel Rosete, Jardim Oudinot, Ílhavo, 17/08/2010

"SONAMBULISMO", por IR

canto das aves brancas acorda-me
Do sonambulismo persistente,
Do cansaço do simplesmente existir,
Do cansaço do pensar nesta dor da minha existência
- nem sempre colorida, nem sempre a preto ou a branco -
Logo à primeira luz da manhã,
Qual despertador sem ponteiros impostos
Que a Natureza me doa todos os dias
‑ tão generosa, tão doce, tão terna… ‑
Para que o milagre do Ser aconteça e não se esqueça,
Para que as maravilhas da Criação
Sejam erguidas e celebradas em plena harmonia
Com todos os estados de Graça,
Grandiosos em cada fruto,
Em cada flor… espalhados pelos campos;
Em cada animal, que corre pelo vasto pastoreio
Durante mais um dia de luta pela sobrevivência;
Em cada Homem que lança as suas garras,
As suas redes para capturar as suas presas,
Indefesas, na ambição de tudo possuir e dominar.

Assim habitam a Natureza, estas criaturas
De celebração e de repressão.
Com ela repartem e recolhem as dádivas
Mais singelas em plena Eucaristia
Ou des-continuidade e des-comunhão.

Não há contrários que não se unam.
Não há contrários que não se mantenham
                          [como contrários ancorados.
E o desterro só chega quando a mão humana
Mexe e re-mexe as entranhas do mundo natural,
Revolvendo o estar e o devir de todos os seus elementos.

Não acoberto esta moléstia do coração dos Homens
Jamais movidos, nos seus intentos e actos,
Pela salvaguarda da Terra, sua mãe de corpo, sangue e Alma.

IR, Jardim Oudinot, Ílhavo, 17/08/2010

"A VIA LÁCTEA", por IR

«A via láctea cobre-me
Tal como os ramos secos pelo tempo
Daquela figueira ancestral que mora
Ao pé da minha varanda sem lhe fazer sombra
- Aquela dos pingos de mel arroxeados -
Onde se guardam todas as minhas memórias
De estórias, de lendas, de dizeres encantados…
Arquivadas nos espaços longínquos
Da infância vivida por entre as bonecas de trapo,
O jogo das escondidas e o saltar à corda,
Agora emersos nas recordações que sempre voltam,
Nas recordações que sempre se deslocam
Mas que nem sempre se des-velam.»

IR, Jardim Oudinot, Ílhavo, 17/08/2010