quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Posfácio do meu novo livro, "ENTRE-CORPOS"


Posfácio de "ENTRE-CORPOS, por Isabel Rosete - Nele encontram a teoria que me moveu a escrevê-lo, a qual apresenta a minha visão do seu conteúdo específico.


POSFÁCIO

"Aos outros cabe-lhes o universo;

A mim, penumbra, o hábito do verso.

Todo o poema, com o tempo, é uma elegia.

Não há outros paraísos que não sejam paraísos perdidos.

A página vive para lá da mão que a escreve."
Jorge Luís Borges


«Fala-se de Corpos nesta obra que desce até às entranhas do Sentir. De corpos vivos e de corpos mortos; de corpos decaídos e exaltados; de corpos cansados e embriagados; de corpos em todas as suas formas e estados reais ou possíveis.

Também as Almas são aqui celebradas: as puras, as impuras, as que transmigram, as que permanecem neste ou naquele lugar sonhado, vivido, projectado, tão intensamente pela paixão convicta de ser o Tudo, na sua autenticidade iluminatória.

Almas fora ou dentro dos Corpos; almas que transcendem e deixam, por instantes, os corpos suspensos, solitários, entregues a si próprios; almas que os integram, acompanham e animam na leveza ou no peso do Cosmos.

No entanto, em momento algum se defende a dualidade antropológica decretada por Platão na República, no Fédon, no Ménon ou em qualquer outro dos célebres diálogos deste pensador binário. Jamais se perspectiva o Corpo como cárcere da Alma; jamais se concebe a Alma como uma forma, co-afim com tantas outras formas ou eidos imateriais, incorpóreos, residentes no Mundo Inteligível, cujo Corpo em que encarnam é mera cópia ou simulacro, completamente desprezível.

É claro que se procuram as essências, a verdade daquilo que é, em detrimento das aparências, das ilusões dos sentidos ou dos sonhos sem fundamento, da verosimilhança ou de qualquer outro modo de pseudo conhecimento da realidade que a torne o que ela não é, que a ludibrie no seu ser próprio. Porém, as essências na sua materialidade, ou espiritualidade – também o podemos admitir – vistas pelos olhos da Razão que perpassam o parecer-ser e desvelam o originário.

Não há fugas ao ver claramente visto; não há fugas ao ouvir que escuta até ao ínfimo nível dos ultra-sons. Também não há fugas ao tacto, ao olfacto ou ao gosto que, em combinação perfeita com a Razão, nos mostram o Mundo, físico e humano, na veracidade do seu ser.

Todos os sentidos, holisticamente conjugados, se revelam como portas e janelas, como aberturas conscientes e racionalizadas, pela crítica, dos múltiplos estados concretos ou prováveis, perfeitamente possíveis – digamo-lo sem reservas – de todos os Corpos e de todas as Almas.

Há, apenas, estados múltiplos e sequenciais, circunstâncias de comunhão e de separação de Corpos e de Almas, à semelhança do que acontece com todas as coisas animadas, num misto de realidade e de ficção (mera projecção da realidade), que me movem no pensamento e na escrita.

A Vida e a Morte são, em Entre-Corpos, as etapas efémeras e eternas dos Corpos e das Almas, unidas ou separadas pelo Amor, esse estádio outro que tanto é Vida como é Morte. Talvez a Morte seja mais inverosímil do que a Vida e, por conseguinte, a Alma perdure, mesmo que o Corpo seja ou não um caos ambulante.

Também o Amor se presentifica e entifica, nestas linhas escritas com a minha alma e com o meu corpo, com o meu sangue, nas suas múltiplas formas ou séquitos de ser, sem ocultar alguma. Amores de todas as cores e de todos os sons. Amores de todos os sabores, tactos ou cheiros. Amores sentidos, vividos, sonhados, ideados… meus e de todos os outros, passados ou vindouros. Tão-só Amores!

Na trilogia – Vida, Amor e Morte – caminha esta obra, por entre todos os Corpos vivificados ou trucidados pelas Almas que os escoltam ou abandonam. Almas e Corpos que riem; Corpos e Almas que choram, que sonham o Mistério e o Milagre que é o Amor; que almejam a Felicidade e a Glória, como formas de aniquilação do sofrimento, inevitável.

Entre-Corpos, coisas do Amor e da Morte ou da Morte e do Amor são, a limite, o mesmo. Talvez haja uma paixão desmedida, completamente assoberbada, no Amor e na Morte, que nos descontrola o Espírito, sem volta à sensatez. O racional e o emocional misturam-se num novelo de emaranhados fios por nós não desatados. Impera um Amor que se gera nas Ideias, mas que solicita, ao mesmo tempo, o Corpo para a sua materialização efectiva, porque dele inseparável.

Talvez já não possamos estabelecer a diferenciação específica, rigorosa e absoluta, a partição “clara e distinta”, como diría Descartes – o filósofo por excelência dualista da Época Moderna, das “paixões da alma” que não são jamais as “paixões do corpo” – entre os múltiplos conceitos que, sob o nome do Amor, se exaltam, se agitam e giram em seu redor: o “desejo”, o “instinto”, a “libido”, a “tentação”, a “química”, a “carência” do estar só, uma certa “alucinação” que nos impele ao “apetite” e à “provocação” do outro, que esperamos desesperadamente em nós.

Evidencia-se, não obstante, que em qualquer estado em que o Amor e a Morte se apresentem, nada se acata dentro do Eu que, apenas, fervilha e fervilha, sem saber onde está o início, sem saber qual o terminus do seu próprio fim, quer se trate da união consigo, quer da união com o outro.

O impulso à umbilical comunhão dos corpos, cresce numa escala vertiginosa que desatina e não atina em absoluto. Há a inquietude irritante e ardente dos amores não vividos, num intenso enorme, ou numa quase loucura do ser que não é, mas que fustiga e não pára e não se aquieta. Assoma o prazer desejado sem contenção, nem dos músculos, nem das veias, nem das vísceras, nem das células.

O complexo físico-químico que somos revolta-se aquando da junção do Corpo e da Alma, fundidos num desejo só. É o querer que comanda. Um querer que é Vontade do Outro. Sem o Outro não se mantém; sem o Outro não sossega.

Infortúnio da Alma, este querer ilimitado, esta Vontade-de-Poder que determina os sentires incondicionalmente, porque está acima do Tudo, do Absoluto, do Indeterminado, do Telos de todas as coisas animadas ou inanimadas, porque vai para além da Morte e destrona o efémero?

Ergue-se, num escasso instante, o turbilhão existencial que nos transporta para múltiplos estados outros, jamais cogitados. Instala-se o novo, o inesperado, a súbita palpitação do Coração desprevenido emersa pela paixão que, freneticamente, se desenrola sem rumo determinado a priori.

Não há serenidade nos corações dos amantes, na Vida e na Morte, que assim se movem sem qualquer espécie de freios, porque o freio não existe aquando da exaltação dos sentires dispersos, conscientes ou inconscientes. Não pode existir, de modo algum. É imperativo que não exista. Se existisse, não seria nem Amor, nem Morte.

O Amor vulcaniza-se pelos meandros da Vida e da Morte e derrama a sua lava, incandescente, em todas as direcções. Não escolhe trilhos. Não tem deliberações. Não está sujeito a pré-determinações. Apenas escorre, flui, goteja, mas nunca se esgota na sua essencialidade. Há sempre um rasto que fica no e para além do Tempo. Move-se, como perfeito dinamite, sempre pronto a explodir em qualquer momento.

Este descontrolo, nem sempre total, a escrita aclama, qual desabafo que o papel em branco acondiciona, aconchega e, deste modo, tranquiliza o desconforto da Alma e do Corpo que choram, se exaltam ou se preenchem de um prazer ímpar, naturalmente indizível pela objectividade racionalista.

Assim é a Vida. Assim é a Morte. Assim é o Amor.

Assim é o Tempo. Assim é a Eternidade. Assim são os espelhos, côncavos ou convexos, que nos mostram, amiúde, um outro rosto no labirinto dos caminhos que, nem sempre, se bifurcam.

Ainda e sempre o enigma da Esfinge? O erro do nosso estar metafísico que não nos deixa ser Édipo? Ou a ausência da luz do Ser?

“Caminhamos para uma Estrela, nada mais”, “quando, no silêncio da madrugada, o céu pouco a pouco se ilumina no cimo das montanhas…” (Martin Heidegger)»

Isabel Rosete
Janeiro de 2011

Blogue no meu novo livro: "ENTRE-CORPOS":
http://isabelroseteentrecorpos.blogspot.com/

Aguardo a vossa visita e os vossos comentários!

Informo que este livro se encontra disponível nas lojas online das livrariras Bertrande e Wook.

Saudações poéticas,
IR


Permaneço no silêncio fechado do Mar remoto,
Por onde se ergue a minha voz calada:

- Porque as Palavras já se esgotaram;

- Porque as Lágrimas já foram todas derramadas;

- Porque o Choro me trava a garganta;

- Porque a Vida já não me sorri;

- Porque a Morte já não me espera;

- Porque o efémero permanece

e o Eterno já não alcanço;

- Porque a Dor já não me deixa;

- Porque a Felicidade já não regressa;

- Porque o Destino já não me comanda;

- Porque o Espanto me fecha em mim;

- Porque as Águas já não me molham os pés

nem me consolam a alma;

- Porque o Sol já não brilha na sua mais pura claridade;

- Porque as Flores já não são coloridas;

- Porque Ares airosos já não flutuam em mim;

- Porque o Fogo já não me aquece;

- Porque a Tormenta me congela o cérebro;

- Porque o Mundo já não é mais redondo;

- Porque as Andorinhas já não voltam com a Primavera;

- Porque o Sonho já não se ergue

e as folhas, no Outono, teimam em cair secas e desfeitas;

- Porque o Silêncio já não desce do alto e Deus;

- Porque o Silêncio é imposto à minha voz calada

no suor e no sopro da Eternidade,

que clama o Infinito na purificação

da Unidade do Cosmos universal,

Que já não Ouço,

que já não Vejo,

que já não Sinto;

- Porque aqui estou no silêncio recolhido que me cobre

e já não me deixa boiar por entre as pedras roxas,

onde os Sons já não se propagam,

onde a Luz já não se acende,

onde a Carne já não vibra!

Isabel Rosete, Ílhavo, 2011

quinta-feira, 3 de novembro de 2011


Escuto o martelar da água salgada nas rochas

Que habitam as praias solitárias,

Essas por onde passam, de sobrevôo,

As gaivotas e, por vezes,

Os homens em busca da quietude

Outrora perdida num manto de Rosas vermelhas,

Onde se entoam e ecoam todas as Paixões.

Os amantes, já exaustos, deambulam pelas areias

Movediças, autênticos palcos de muitos mundos,

Esses que imaginamos, mas ainda não vivemos

Onde arquitetam ou aniquilam as suas próprias moradas.


Uma linguagem incompreensível vocifera das suas bocas

Quentes, abrasadas, suadas pelos beijos trocados

Com o sabor amargo e doce da Vida não habitada

Em terreno firme e terno.


Ah, a Vida, o trampolim, a barra olímpica

Por onde caminhamos em perplexos des-equilíbrios

No correr solto dos ventos saltitantes

Que bolem as nossas pernas trôpegas,

Como se mal tivéssemos começado a andar!

Isabel Rosete
No silêncio da Morte,

Enquanto Deus dorme,

Movo-me, leve, tão... serena...

Pelos espaços astrais que me engrandecem

E comovem na tranquilidade da minha Alma.

A paz dos Anjos esses entes alados em vigília

Constante permanente, acompanha-me

Com a ternura e a serenidade dos Espíritos puros.

O meu Corpo, então, sossega e adormece

Na tranquilidade da Eternidade.

Isabel Rosete
(Inédito)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Escrevo sempre que o meu pensamento

Se volta para o interior de si próprio,

Sempre que nele se espelha o Mundo,

Sempre que nele se relfecte a Natureza,

A Humanidade, nos seus confins e afins,

Em trajectórias imensas que percorrem

Todos os ciclos do Universo.

Absorvo o Tudo, o Nada e o Vazio, o Acaso,

O Ocaso... Que se dá sublimadamente,

O Destino, que se mostra e esconde,

Num mesmo instante existencial irrepetível.


Nada pode ser ocultado.

Não há omissões possíveis

Neste espaço de transparência absoluta

Onde reina a Verdade

E não mais a verosimilhança.


Todos os detalhes, mais ou menos recônditos,

São naturalmente cruciais,

Até mesmo os aparentemente mais fúteis,

Porque o Todo que sempre move a ambição

Desmedida do Pensamento só é visível

Por entre as suas ínfimas e ilimitadas partes;

Porque a Alma dos Tempos,

Passados e Vindouros,

Só re-luz quando imersa no seu cheio redondo.

IR, Ílhavo, 19/03/2009

domingo, 23 de outubro de 2011


Li a tua carta de ontem

Ao rair da madrugada luminosa.

Não inalei o teu cheiro,

Não ouvi a tua voz,

Não saboreei o teu paladar.

Por isso, não te senti.

Estavas longe, muito longe...

Demasiado longe... Tão longe...

Para chegares até mim!



As tuas mãos já não me tocam,

Os teus olhos já não me enxergam,

A tua alma já não me anima

E o teu corpo já não penetra o meu.



Permanecemos na distância próxima

Da nostalgia que, ainda, nos abala,

Na memória repleta de recordações

De nós, outrora, fundidos numa mesma

Matéria e num mesmo Espírito.



Isabel Rosete, Ílhavo, 19/06/2010

Os pratos da balança já não se equilibram mais!

Já não sabemos onde mora a Justiça!

A medida certa acabou!

Esgotou-se nas hipérboles

Dos inglórios feitos humanos.



A incerteza, a dúvida, o paradoxo

São o paradeiro do nosso caminhar incerto

Em terreno irremediavelmente movediço,

Ao mesmo tempo que estanque

E repleto de obstáculos inultrapassáveis.



Sempre nos prendem as pernas

Quando os nossos passos são longos!

Sempre nos prendem os passos

Quando as nossas pernas caminham

Em direcção aos lugares nunca antes cogitados!



Ah, que ilusão, a dos Homens,

Sempre que lançam na Terra e nos Mares

As malhas apertadas das suas próprias redes

Como (supostos) senhores, dominadores do Universo

Físico e humano, onde residem e escassamente habitam!



O Mundo está aí e permanece imutável,

Na sua essência, apesar de todas as investidas

Desta Humanidade minoritária que luta

Pelas suas mais nobres causas, sempre solitária;

Que acompanha, em desacordo, o furor das multidões

Em revolta, contra o imposto pelas leis da Natureza,

Que não mais salvaguarda ou protege.



Ai, esta Humanidade que, um dia,

Alimentou a vã ilusão do Tudo manipular,

De ser a gestora de um Universo que,

Amiúde, gosta de se esconder

Na sua mutabilidade camaliónica!

Isabel Rosete
Amo o Desejo com o corpo todo.

Amo o Desejo com a alma inteira.

Amo-te de corpo e alma com o Desejo pleno.

Queres maior prova do meu Amor?

Assim me habito e te habito nesta morada

Viva de um Amor eterno, num obscuro domínio.


IR, Ílhavo, 09/02/2011