terça-feira, 24 de novembro de 2009

Ah, como amo o Ex-traordinário
Na ausência de todos os limites,
O ser e o vir-a-ser de tudo o que
Na sua pujança
Ainda não é!

Um Mundo é sempre um Mundo!
Na vacuidade da sua representação formal,
No ilusório espaço de transmutação
Das criaturas
Sempre, em devir perpétuo.

Num espaço trans-planetário
Se desdobram e difundem
No mesmo de si
No mesmo de todos os outros.

Fusões de identidade
Dis-persas!

Criaturas e espaços!
Espaços das criaturas!
Do criado e do in-criado
Na inexistência da matéria originária
E da forma
Primogénita
Dos limites dos corpos!

E a hipérbole
Perpassa esta minha visão-do-mundo
Que ultrapassa o parecer-ser!

Sigo na direcção das essências
Almejo o Uno primordial
Algures
Oculto
Em qualquer parte do Universo.

25/11/2009
Isabel Rosete
Chamo a paz das nascentes
E as águas límpidas das fontes
Que não jorram mais.

Mas, não vou por aí!
Não, não vou por aí!

Os caminhos paralelos aureolam-me
Envolvem-me os passos
Na massa compacta do Mundo.

Distraída
Sigo
Em derredor do rumo dos ventos
Da direcção das estrelas.

No silêncio da atmosfera
Vagueio,
Na paz das florestas
Jamais descanso!

Florestas de pedra
De betão…
Tão opacas quanto transparentes
Tão verdes quanto vermelhas…

Também
Negras
Pela fumaça das máquinas
Que já não respiram mais.

25/11/2009
Isabel Rosete
Não há espaços ancestrais
Que nos acolham!

Que mãos terríveis
As dos Homens!
Tão trémulas e tão vacilantes
Quanto o mais frágil vime;
Tão poderosas e monstruosas
Indignas e vis
Quanto a alma de um tirano.

Isabel Rosete
O Mar faz ecoar,
Ao longe,
O doce e ilusório canto das sereias.

Pelos marinheiros
Não chamam!
Mas entoam os sons últimos
Das vozes nele caladas
Pelos estrondos sons dos canhões
Que, para sempre, as submergiram
Sem dó!

Isabel Rosete
O Universo derrama lágrimas
De um insondável silêncio
De sangue
De angústia
De morte…

Insuflado pelo ódio dos Homens
Des-orbita-se
Des-concentra-se do ante-cantar primordial
Que da lava viscosa
Em Terra firma
Não mais se transformou.

É uma massa difusa
Uma amálgama de lixo cósmico
De pedaços soltos caoticamente organizados
Num centro que não é centro algum
Num Topos
Que não é mais um lugar natural,
Num espaço
Que não tem mais consistência;
Num tempo
Que não é mais Tempo
Nem finitude
Nem eternidade!

Um universo perdido
Em órbitas desencontradas
Em revolta intra-estelar
Em ritmo desconcertante…
Eis o que fizemos
Des-fizemos
E não conquistámos mais
Por essa pobre angústia nossa
De aves de rapina
Ou por essa dilacerada e sórdida leveza
De asas de condor.

Isabel Rosete
Há um Espírito errante
Que nos percorre
Cobre as nossas faces
Desprotegidas
Invade a nossa morada,
Nunca a salvo de qualquer perigo.

Por entre a seiva da Vida
Corre o esgoto,
Das mentes pálidas;

A podridão
Do horror,
O enfado
Do tédio,
A escuridão
Cega e surda,
Das franjas deixadas ela inveja.

Isabel Rosete

Caminhos do Ser

As viagens são múltiplas
Os caminhos diversos
Os do Ser e os do “não-Ser”
Os do Nada…

A metamorfose
E a mudança
Comandam o mundo.

O Ser não permanece mais
Na sua imutabilidade originária!

As sombras
As aparências
Ofuscam o olhar
Dos que querem ver
A essência
O miolo sedoso
De um pão bolorento…

A identidade perde-se.
Somos o mesmo rebanho!

Corremos na mesma direcção
E já nada identificamos com precisão!

A amalgama do mundo
Corre nas nossas veias…

Isabel Rosete

terça-feira, 3 de novembro de 2009

"Normalidade"


Somos tão ilusoriamente obcecados pela “normalidade” como se, de facto, a “normalidade” existisse… O que é a “normalidade”? Respondam-me, se sois capazes….
Escuto! Paro! Vejo!
Concentro-me na “normalidade” dos Homens… Não passamos, assim o constato, de complexos físico-químicos, de um conjunto de átomos e de moléculas, organizados de uma determinada forma, específica. Aí está, a nossa “normalidade”. E o resto? O resto… são meras variações de uma fórmula comum. É simples, não é?
“Atroz”: é o adjectivo que devemos utilizar para quem é incapaz de percepcionar a diferença, dentro da “normalidade”.

Isabel Rosete
Não quero que prantem a minha morte. Odeio essas lágrimas mordidas que nada significam. Esses meros pedaços de nada das mentes que sempre me ultrajaram e nunca me acudiram.
Glorifiquem, venerem, os Pensamentos que tive e nunca escrevi. Passados quarenta e dois anos, desta minha existência conturbada, é o que vos peço.
Quantos erros não cometi? Quantos, ainda, não irei cometer?
Sou a réplica perfeita de um alma que chora, por não ser compreendida. Não tenho a paz perpétua. Não deixei outros opúsculos. Apenas, alguns pensamentos dispersos. A quem os ler, resta encontrar a lógica, o sentido de tantos retalhos que, nem sempre, fui capaz de unir…
O timbre do tédio regista-se na minha mente, onde já não cabe mais um ínfimo resquício de esperança.
Como me revejo em Sócrates e nessa ideia da Morte como um Bem, Supremo….

Isabel Rosete

domingo, 25 de outubro de 2009

Um dia de Sol resplandece
Por entre as águas cristalinas
Tão puras,
Tão imortais,
Tão ancestrais quanto o próprio Homem.

Mas não há Sol
Que ilumine as mentes escuras
Travadas pelas trevas da
Ignorância!

Mas não há Sol
Que entre pelas vidraças,
Húmidas e tristes,
Das casas cinzentas
Votadas ao abandono
Pela (des)habitação do Humano!

Mas não há Sol
Que acalente
Os corações jazidos
Pelo ódio ainda não arrefecido,
Pela vingança irreflectida
Dos espíritos acobardados!

Isabel Rosete