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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Auto-Retrato

Escrevo até à exaustão do sentir.
Em cada noite que permaneço
Em estado de alerta,
Acompanham-me as estrelas,
A Lua, a chuva, as tempestades,
O silêncio,
Que a paz me traz
E a minha lucidez engrandece.

As palavras sempre fluem,
Soltas,
Dispersas ou conjugadas.

O sono teima em não chegar
Face a essa ânsia
Incontrolável
Do pensamento que quer ser dito,
Da voz que se quer erguer
No silêncio dos orbes celestes.

Tudo é fonte de inspiração.
Tudo impele ao mais simples
E ao mais entrelaçado
Dos modos do Dizer.

Todo o pensado
Deve ser dito.
Tem que ser dito.
Deve ser dito (repito).

O pensamento
Comanda a mão que,
Tremulamente,
Escreve.
Um pensamento redondo
Que jamais se quer conter
No seio dos limites esferoidais
Da circunferência que o envolve.

As ideias rodopiam.
Tornam-se visíveis.
Mostram-se ao Mundo.

O meu pensamento
Não quer calar mais a sua voz.
Grita,
Expande-se,
Exterioriza-se.

Com outros pensamentos
Se pretende entrecruzar,
Para recolher
A mais nobre seiva de outras mentes,
Monadologicamente conjugadas,
Com portas e janelas
Viradas para o Aberto
Do esplendor da Criação.

O Pensamento é a mais preciosa lente
De observação do Mundo.
Em si mesmo,
Todos os pormenores pode acolher
Des-construir
Editar e re-editar.
Dentro de si,
Todas as essências pode acolher.

Sem limites,
Navega o meu pensamento.
Sempre na ânsia de percorrer
Todos os mundos possíveis,
Determinado por um sentido universal
E universalizante.
Quer abarcar o Todo,
Sem deixar nada de fora.

Aos insondáveis mistérios
Se dirige
Com uma curiosidade infinita.
Os segredos do Universo
Quer desvendar,
Não para o manipular,
Mas para o salvaguardar da originariedade
Que ainda lhe resta.

Tudo dentro de mim!
Nada fora de mim!
Eis o lema que,
Sempre,
Me persegue.

É megalómano?
Sem dúvida…

Não se desfaz
Na quebra das ondas,
Nem na alternância das marés.
Permanece, aí,
Convicto da sua missão:
Observar e dizer o Mundo,
Ritmicamente,
Sem má fé,
Sem pré-conceitos.
Com racionalidade,
Sensatez e originalidade.

Isabel Rosete
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